2 de mar de 2012

Filhas do vento – Mulheres tecendo afeto e memória na construção familiar





Edileuza Penha de Souza* (especialmente para o blog)

           No líquido do copo
entorno a sua fluida
lembrança.
Bebo aos goles
o seu doce caldo
armazenado e curtido
em minha memória
e, quando depois
me erro nos passos
inebriada dos meus enganos
toco o vazio de sua ausência
percebendo, então
que você me escorre dos sonhos
Tal qual a baba indomável
que da boca do bêbado sonolento
escapa.
                                                                                                FLUIDA LEMBRANÇA - Conceição Evaristo


Primeiro longa-metragem do gênero drama dirigido pelo cineasta Joel Zito Araújo, é também seu primeiro filme de ficção. A narrativa fílmica conta a história de vida de Cida (Ruth de Souza) e de sua irmã Ju (Léa Garcia) separadas por quase 45 anos. Elas, entretanto, não conseguem dissipar a mágoa provocada pelo incidente amoroso e familiar que marcou a juventude e a vida das duas. Com a morte do pai, Zé das Bicicletas (Milton Gonçalves), Cida retorna, acompanhada de sua filha Selminha (Maria Ceiça) e de sua sobrinha Dorinha (Danielle Ornelas), a sua cidade, local onde mães, irmãs e filhas se reencontram e vivem conflitos afetivos e sociais, separações e destinos diferentes na polarização entre vida urbana e interiorana.

Produção de Márcio Curi, música de Marcus Viana, direção de fotografia de Jacob Sarmento Solitrenick, direção de arte de Andréa Velloso e edição de Isabela Monteiro de Castro, o filme é resultado de trabalho de uma equipe de profissionais competentes, somando técnicas e representações ao tratar de forma poética de questões tão duras e reais. O filme marca um contexto de diversidade em que mulheres, negras ou não, estão inseridas; a narrativa possibilita discussões sobre um cinema que busca romper com os estereótipos e o racismo de uma “sociedade esteticamente regida por um paradigma branco” (Sodré, 2001, p. 235)1. A obra nos conduz em incursões sobre experiências de família, juventude, solidão, carreira profissional, inseguranças, aborto, amores, mágoas, memória e afeto.

O filme projeta um cinema capaz de exercer seu papel principal, de instrumento para elucidar a memória e narrativa das histórias de amor, paixão e desejos. As personagens femininas, todas mulheres negras, tecem uma romântica história de amor entre gerações, na qual irmãs, mães e filhas se reencontram, por meio do aprendizado do acolhimento, do perdão, do reconhecimento, da coletividade e do amor.


Mães, filhas e sobrinhas, as quatro mulheres são constituídas de uma fonte de energia. A espiritualidade de cada uma possibilita a circularidade. Ao reconhecerem que a união de suas forças resulta na coletividade, o elo familiar volta a se recompor. E nesse momento, a estrutura fílmica revela concepções de valores e linguagens cinematográficas moldados no comprometimento de um cinema que transforma brisas, ventanias e tempestades em imagens que tecem a identidade negra.

Selecionado para Première Mundial em Nova York, a convite do MoMA – Museu de Arte Moderna, junho de 2004, entre tantos outros festivais internacionais e nacionais2, Filhas do Vento foi o filme premiado do Festival de Gramado de 2004, quando recebeu cinco Kikitos. Apesar disso, não ficou em cartaz mais do que apenas algumas semanas, o que possibilitou a pouquíssimas pessoas assistir nas grandes telas a esse filme protagonizado por mulheres negras, trabalhadoras, lutadoras e sonhadoras.

Se o cinema interage com o emocional, o intelectual, o físico e o psíquico, proporcionando, individual e coletivamente, “estímulos da imaginação como um constante desafio para o intelecto e um cultivo do senso de apreciação” (Santos, 1988)3, Filhas do Vento fomenta no telespectador histórias de vida, relacionamentos amorosos e de família, existencialismo, trabalho, e o tempo que se dedica a cada uma dessas funções.

Acredito que as histórias narradas pelo cinema possibilitam a construção de novos olhares para as diversidades. Nesse sentido, o filme Filhas do Vento reanima o cinema nacional e os meios de comunicação com um sopro de combate ao racismo, ao preconceito e à discriminação ao cumprir papel elementar a uma nova construção de imagens e representações das mulheres negras no cinema. Assim, se os ventos são vitais à dinâmica terrestre, o filme de Joel Zito Araújo consolida um movimento de luta e resistência que aviva outras estratégias para representar as mulheres negras nos meios de comunicação e na sociedade, e ainda, diria Fernando Pessoa, “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”.

Notas e referências
Texto original: “Mulheres Negras no Cinema Brasileiro – estratégias de afeto, amor e identidade” - Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder - Florianópolis, de 25 a 28 de agosto de 2008. Disponível em: <http://www.fazendogenero.ufsc.br/8/sts/ST69/Edileuza_Penha_de_Souza_69.pdf>

1 SODRÉ, Muniz. Reinventando a cultura: a comunicação e seus produtos. 4.ed. Petrópolis:  Vozes, 2001
2 Ver: <http://www.meucinemabrasileiro.com/filmes/filhas-do-vento/filhas-do-vento.asp>
3 SANTOS, Juana E. Os Nagô e a morte. Petrópolis, Vozes, 1988


*Edileuza Penha de Souza é doutoranda em Mídia e Educação na Universidade de Brasília (UnB), onde leciona as disciplinas: Pensamento Negro Contemporâneo; e Cinema Negro.


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O filme "Filhas do Vento",  será exibido nos 
dias 06/03 (terça-feira, às 19h) e 09/03 (sexta-feira, às 12h30),
no Goiânia Cine Ouro (ingressos: R$1), pela Semira Mostra Mulheres no Cinema.



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